Alfredo Sirkis (1950–2020)
Alfredo Hélio Syrkis—conhecido publicamente como Alfredo Sirkis—foi escritor, jornalista, ambientalista, gestor urbano e político brasileiro. Ao longo de cinco décadas, sua vida atravessou conflitos centrais do Brasil contemporâneo: a resistência à ditadura militar, o exílio e a redemocratização, o surgimento da política verde, a transformação do Rio de Janeiro e o esforço para tornar a política climática uma prioridade nacional e internacional.
Em resumo
- 1950 — Nasceu no Rio de Janeiro em 8 de dezembro.
- 1967–1968 — Organizou estudantes secundaristas e participou das grandes manifestações contra a ditadura.
- 1969–1971 — Integrou a resistência clandestina na Vanguarda Popular Revolucionária.
- 1971–1979 — Viveu no exílio na França, no Chile, na Argentina e em Portugal, trabalhando sobretudo como jornalista.
- 1980–1981 — Publicou Os Carbonários, que se tornou best-seller e recebeu o Prêmio Jabuti.
- 1986 — Ajudou a fundar o Partido Verde.
- 1989–2000 — Exerceu três períodos na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
- 1993–1996 — Dirigiu a recém-criada secretaria municipal de Meio Ambiente do Rio.
- 2001–2006 — Foi secretário de Urbanismo e presidente do Instituto Pereira Passos.
- 2011–2015 — Representou o Rio de Janeiro na Câmara dos Deputados.
- 2015 — Fundou o Centro Brasil no Clima.
- 2016–2019 — Coordenou o Fórum Brasileiro de Mudança do Clima.
- 2020 — Publicou Descarbonário e morreu em 10 de julho.
Infância e movimento estudantil
Sirkis nasceu no Rio de Janeiro em 8 de dezembro de 1950, filho único de imigrantes judeus poloneses. Começou a atuar politicamente no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1967 e 1968 participou da organização dos estudantes secundaristas e das grandes manifestações contra a ditadura, entre elas a Passeata dos Cem Mil.
A repressão se intensificou radicalmente após o Ato Institucional Número Cinco, de dezembro de 1968. Como outros jovens militantes de sua geração, Sirkis passou da mobilização estudantil pública à resistência clandestina. Em 1969 ingressou na Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR, cujo dirigente mais conhecido era o ex-capitão do Exército Carlos Lamarca. Na clandestinidade, sob o codinome Felipe, participou de operações que buscavam trocar diplomatas estrangeiros por presos políticos mantidos e torturados pelo regime.
Sirkis participou do planejamento e do apoio ao sequestro do embaixador da Alemanha Ocidental, Ehrenfried von Holleben, em 1970, e atuou como intérprete durante o cativeiro. No fim daquele ano, ajudou a vigiar o embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher. Quando as negociações ficaram paralisadas, Sirkis e José Roberto Gonçalves de Rezende votaram contra a execução do diplomata. Lamarca acabou rejeitando a proposta de execução, e Bucher foi libertado depois que setenta presos políticos seguiram para o exílio. Mais tarde, Sirkis relataria esse período em Os Carbonários, como testemunho pessoal e não como lenda heroica.
Exílio e jornalismo
Sirkis deixou a VPR e o Brasil em 1971. Durante oito anos e meio de exílio viveu na França, no Chile, na Argentina e em Portugal. Trabalhou como jornalista, por vezes usando o nome Marcelo Dias, e colaborou com veículos como Libération, Le Monde diplomatique, Expresso, República, Diário Popular, Jornal Novo e Cadernos do Terceiro Mundo.
Em 1973, foi a Santiago como correspondente do recém-criado Libération para acompanhar o governo de Salvador Allende. Estava no Chile durante o golpe militar de 11 de setembro e fugiu para Buenos Aires, onde continuou trabalhando como correspondente. Mais tarde estabeleceu-se em Lisboa. Esses anos forneceram o material de A Guerra da Argentina, ensaio sobre a história política argentina, e Roleta Chilena, memória dos primeiros anos do exílio.
A Lei da Anistia de 1979 permitiu seu retorno ao Brasil. Sirkis retomou o jornalismo em revistas como Veja e IstoÉ, colaborou com grandes jornais brasileiros e escreveu roteiros para televisão e cinema. Seu primeiro livro de memórias após a volta, Os Carbonários, tornou-se best-seller e recebeu o Prêmio Jabuti de 1981. O relato sobre a juventude sob a ditadura ajudou a inspirar a minissérie Anos Rebeldes, de 1992.
Da política revolucionária à política verde
Depois do retorno, Sirkis afastou-se do marxismo dos anos de guerrilha e tornou-se um dos primeiros defensores da ecologia política no Brasil. Atuou em movimentos preocupados com a Amazônia e a qualidade de vida urbana, colaborou com Chico Mendes e ajudou a organizar a manifestação Salve a Amazônia pouco antes do assassinato do líder seringueiro, em 1988.
Em 1986, Sirkis foi um dos fundadores do Partido Verde. Foi seu primeiro secretário-geral e presidente nacional entre 1991 e 1999. Eleito vereador do Rio de Janeiro em 1988, foi o candidato mais votado para a Câmara e conquistou outros mandatos. Como legislador, ajudou a criar áreas de proteção na Prainha, no Bosque da Freguesia, na Lagoa de Marapendi e em outros pontos da cidade. Redigiu dispositivos ambientais da Lei Orgânica e do Plano Diretor e foi autor da lei de incentivos fiscais ambientais conhecida como Lei Sirkis, que contribuiu para viabilizar o Fórum Global da sociedade civil durante a Rio-92.
Em 1998, candidatou-se à Presidência da República pelo Partido Verde, utilizando a campanha sobretudo para levar o programa ambiental do partido ao debate nacional. Também concorreu à prefeitura e ao Senado e retornou à Câmara Municipal em 2008. Em 2009 e no início de 2010 ajudou a coordenar a campanha presidencial de Marina Silva, experiência relatada em O Efeito Marina.
Meio ambiente e urbanismo no Rio
Sirkis foi secretário municipal de Meio Ambiente do Rio de Janeiro entre 1993 e 1996. Sua gestão ampliou o reflorestamento comunitário em quarenta e sete favelas de encosta, criou uma unidade ambiental na Guarda Municipal, promoveu saneamento e recuperação de lagoas e negociou soluções que converteram áreas disputadas em parques públicos e espaços protegidos. Também lançou as bases do que se tornaria, naquele momento, a maior rede urbana de ciclovias do país.
De 2001 a 2006, foi secretário municipal de Urbanismo e presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. Sua equipe preparou projetos estratégicos para a revitalização da zona portuária, trabalhou na reconstrução do Circo Voador e facilitou projetos como a Cidade do Samba e a Vila Olímpica da Gamboa. Criou ainda proteções para bairros e uma coordenadoria de regularização urbanística que atuou em sessenta e uma favelas, oferecendo regras e orientação para construções legais.
Para Sirkis, a ecologia urbana não era um adorno da administração. Ela integrava transporte, habitação, uso do solo, saneamento, espaço público e conservação. O argumento foi desenvolvido em Ecologia Urbana e Poder Local e reapareceu ao longo de toda a sua vida pública.
Congresso e diplomacia climática
Sirkis foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro em 2010 e exerceu o mandato de 2011 a 2015. No Congresso, presidiu a Comissão Mista de Mudanças Climáticas e foi vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara. Opôs-se ao enfraquecimento do Código Florestal e organizou debates climáticos internacionais paralelos à conferência Rio+20, em 2012. Em 2014 decidiu não concorrer à reeleição.
Seu trabalho climático passou a ligar experiência municipal, legislação nacional e negociação internacional. Sirkis integrou delegações brasileiras em numerosas conferências das Nações Unidas, entre elas a conferência de Paris que produziu o acordo de 2015. Defendeu a valorização econômica da mitigação e a ideia de precificação positiva do carbono: recompensar reduções comprovadas, em vez de tratar a política climática apenas como custo ou punição.
Em 2015 criou o Centro Brasil no Clima, think tank apartidário dedicado à política climática. Entre 2016 e 2019 foi coordenador executivo do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima, reunindo governo, empresas, academia e sociedade civil. O fórum organizou a campanha Ratifica Já!, em apoio à rápida ratificação brasileira do Acordo de Paris, e trabalhou em propostas para implementar a contribuição climática nacional do país.
Escritor
Sirkis publicou memória, história política, ficção, análise urbana e política climática. Sua bibliografia de dez livros vai de A Guerra da Argentina e das memórias Os Carbonários e Roleta Chilena ao romance familiar Corredor Polonês, à ficção científica Silicone XXI e às obras posteriores sobre ecologia urbana, política eleitoral, megacidades e descarbonização.
A escrita ligava as etapas distintas de sua vida. As memórias preservaram a ambiguidade moral e o perigo da resistência e do exílio. Os livros urbanos e ambientais transformaram prática administrativa em argumento político. Seu último livro, Descarbonário, reuniu cerca de trinta anos de militância climática e foi publicado em 2020.
Em suas palavras
Sirkis combinava persistência com uma irreverência que atravessou as muitas transformações de sua política. Durante a campanha presidencial de 1998, disse à Eco21: “Sou um lutador de causas difíceis.” Questionado sobre o resultado eleitoral modesto que poderia enfrentar, respondeu que seria “bola pra frente” e que estava “perfeitamente Zen” em relação a isso.
Na mesma entrevista, resumiu sua confiança no governo local: “Quem pode resolver os problemas de educação, saúde, meio ambiente urbano e periférico, transporte e parte da segurança é o poder local; os municípios articulados com a sociedade civil organizada.”
Morte e homenagens
Alfredo Sirkis morreu em 10 de julho de 2020, aos sessenta e nove anos, depois que seu carro saiu da pista no Arco Metropolitano, em Nova Iguaçu. Ele seguia para visitar a mãe, Liliana, de noventa e seis anos, que estava isolada durante a pandemia de COVID-19, e para rever o filho Guilherme.
Suas cinzas foram depositadas no Parque Natural Dois Irmãos, no Rio, onde havia apoiado o reflorestamento e ajudado a estabelecer a área protegida. Na cerimônia, a família plantou um jequitibá-rosa no recém-inaugurado Bosque da Amizade; o parque recebeu ainda o Mirante Ana e Alfredo e um nome oficial ampliado em homenagem a Sérgio Bernardes e Alfredo Sirkis. O Parque Orla de Piratininga, em Niterói, também recebeu seu nome em reconhecimento ao trabalho ambiental. O Climate Reality Project deu seu nome ao Prêmio Anel Verde.
Ao entregar os primeiros Prêmios Anel Verde Memorial Alfredo Sirkis, em julho de 2020, Al Gore lembrou-o como alguém que “viveu uma vida plena e fascinante” e tratava o clima, a Amazônia e o Brasil “com grande entusiasmo”. O prêmio continua a reconhecer comunicadores e ativistas climáticos de atuação excepcional.
Sirkis deixou a esposa, Ana Borelli, os filhos—Anna Syrkis, Guilherme Syrkis e Noah Syrkis—e um legado público que não cabe em um único rótulo. Foi, em momentos diferentes, líder estudantil, militante clandestino, exilado, repórter, romancista, vereador, gestor, parlamentar e negociador climático. O fio que uniu essas vidas foi a disposição de rever a própria política sem abandonar a crença de que instituições democráticas poderiam se tornar mais corajosas, práticas e ecologicamente responsáveis.
Entrevistas e arquivos
- Entrevista da campanha presidencial de 1998 à Eco21
- Biografia parlamentar e registro de mandatos na Câmara dos Deputados
- Entrevista sobre financiamento climático no Clima e Sociedade
- Trecho de Descarbonário na Quatro Cinco Um
- Homenagem de Al Gore a Alfredo Sirkis noticiada por O Globo
- Anúncio oficial do Prêmio Anel Verde Memorial Alfredo Sirkis pelo Climate Reality Project
- Homenagem gravada de Al Gore preservada pelo Centro Brasil no Clima
Fontes
Esta biografia é uma síntese original baseada principalmente no artigo da Wikipédia em português e no artigo da Wikipédia em inglês, cujos textos estão disponíveis sob licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual. Datas, cargos públicos e bibliografia foram conferidos na Câmara dos Deputados e na Open Library. Suas palavras e posições políticas foram verificadas na entrevista à Eco21, e os detalhes das homenagens, na Prefeitura do Rio. Fontes consultadas em 12 de agosto de 2026.